Em política, mais do que os grandes perdões, são as pequenas coisas que importam e causam impressão. No caso do perdão ao marido, acho que o que a prejudicou, não foi tanto o facto de parecer ter publicamente engolido o orgulho e a dignidade em nome de um sentimento pio, mas porque foi óbvio que só o fez pois tinha ambições políticas muito altas (e não por "amor" ao marido). Ou seja, foi um perdão calculista e instrumental, que soou a pouco sincero. A partir daí está criada a imagem de uma mulher fria, de uma mulher-macho ", que ultrapassa a histórica e cultural condição feminina em nome de um objectivo "maior", por princípio reservado aos homens (já lá dizia Vinicius que a mulher tem que ser só perdão...). Quanto às coisas pequenas que , entretanto, se sobrepuseram à "má imagem" que os americanos de certa forma têm de Hillary , temos agora o fatal "whatever " , em relação ao candidato russo cujo nome não soube pronunciar, gaffe que denunciou uma ignorância e desdém adolescentes não admissíveis nesta altura do campeonato. Portanto, talvez este pequeno e quase inaudível "whatever " a tenha agora perdido mais do que, na altura, o perdão público, ambicioso e calculista. Eu perdoar-lhe-ia o perdão, mas não o enfado juvenil.
Sofia Vieira