Domingo, 5 de Outubro de 2008
Rádio Blog: Suicídio em Portugal

                                                                      Mark Kostabi, 2005 (daqui)

 

O suicídio volta a marcar a actualidade graças a um estudo europeu agora divulgado e é, esta semana, tema de debate no Rádio Blog, em parceria com o jornal Meia Hora. O texto de Carla Hilário Quevedo pode ser comentado mais abaixo ou através do 21.351.05.90, até às 17h da próxima 5ªf, 9 de Outubro.

 

Suicídio em Portugal

Ricardo Gusmão, coordenador do Programa Aliança Europeia Contra a Depressão, fez declarações importantes a respeito do número elevado de casos de suicídio em Portugal. Segundo o psiquiatra da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, cerca de 4 pessoas por dia, em Portugal, põem termo à própria vida. Actualmente, homens e mulheres "morrem mais por suicídio do que por homicídio ou Sida". De acordo com um recente estudo intitulado "Métodos de suicídio na Europa", o enforcamento é a forma mais utilizada em 16 países europeus, tanto por homens como por mulheres, embora os primeiros se suicidem de modo sempre mais violento, recorrendo com frequência a armas de fogo. No entanto, analisando os números de casos de suicídio nos jovens entre os 15 e os 24 anos, verificamos que a taxa em Portugal é quase insignificante, quando comparada com os restantes países europeus. Para Ricardo Gusmão, isto revela como os dados estão subavaliados. E explica porquê: "O mau registo do suicídio em Portugal deve-se à subestimação do suicídio e à sobrestimação grosseira das mortes de causa indeterminada, resultado de vários factores culturais e processuais". O que leva alguém ao suicídio? É possível detectar estes casos a tempo de os evitar? Como pode a sociedade impedi-los?



publicado por jazza-me
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Comentários:
De SMC a 6 de Outubro de 2008 às 09:25
Os números portugueses estão naturalmente deflacionados e uma das explicaçõe é muito simples. Uma tentativa de suicídio que não resulte numa morte imediata, mas numa morte passadas umas horas, implica que não seja considerado suicídio consumado.
Passo a explicar (caso real): enforcamento (num hospital, curiosamente). No hospital a pessoa foi reanimada, apesar de ter estado imenso tempo sem pulso. É enviada para outro hospital. No caminho volta a ter paragem, volta a ser reanimada. Chega a S José, ligam-na a uma maquinaria, analisam e tal e esperam que ela morra. E morreu, nem 24 horas depois. Do hospital inicial, onde eu apresentei uma reclamação pela falta de vigilância do doentes, que se conseguem enforcar lá dentro, quando estavam lá devido a uma tentativa de suicídio anterior, na resposta, uma das pérolas que li foi que o suicídio não tinha sido consumado... Maravilhoso, não?


De Scribblers a 6 de Outubro de 2008 às 13:44
Ajudar o SOS Voz Amiga


Comemoram-se esta semana, dia 9, 30 anos sobre a fundação do Centro SOS Voz Amiga, uma iniciativa da Liga Portuguesa de Higiene Mental.

Trata-se de um serviço de ajuda pelo telefone, nomeadamente em situações agudas de sofrimento, situações extremas de solidão, angústia, depressão ou risco de suicídio.

Ora, o aniversário do SOS Voz Amiga não está a ser propriamente alegre. A "linha" esteve em risco de fechar por falta de verbas próprias e um corte nas dotações estatais. A "corda na garganta" para 2008 foi entretanto afastada pelo apoio oportuníssimo da Fundação EDP, mas ainda não chega.

Muito longe de querer apenas sobreviver, o SOS Voz Amiga quer, há anos, ter verbas que lhe permitam a formação de mais voluntários e a contratação de mais especialistas psicólogos/psiquiatras, com vista a assegurar um atendimento de chamadas 24/7.

Infelizmente, são muitos aqueles/as a quem o suicídio de um familiar, amigo ou colega já bateu à porta. Igualmente, muitos de nós sabemos o que são o isolamento, a solidão e os estados depressivos. E nestes casos tão difíceis, soluções como o SOS Voz Amiga podem, de facto, fazer a diferença entre a vida e a morte.

Todos podem ajudar, designadamente com donativos em dinheiro, voluntariado e/ou a oferta de bens específicos, serviços e donativos.

Podem contactar o SOS Voz Amiga, através dos seguintes pontos:

www.sosvozamiga.org
sosvozamiga@gmail.com

Telefone: 213 544 545
Fax: 213 579 980

Liga Portuguesa de Higiene Mental
Largo de Andaluz, n.º 15 - 5º-E2
1050-004 Lisboa
PORTUGAL

DONATIVOS:

1. Conta Bancária Caixa Geral de Depósitos
- NIB 0035 0697 0021 5459 63254
- IBAN PT50 0035 0697 00215459632 54

2 - Cheque ou vale postal para a morada acima


De Anónimo a 6 de Outubro de 2008 às 14:36
De Rui Zink a 6 de Outubro de 2008 às 10:29
Fosse o suicídio a única realidade portuguesa mascarada pelas estatísticas e seríamos o país mais transparente do mundo! Para mim, o suicídio divide-se em duas partes: o adolescente e o adulto. No caso dos adolescentes, trata-se em parte de não facilitar os instrumentos: a pulsão auto-destrutiva faz parte do crescimento. No caso dos adultos, sobretudo depois dos quarenta anos, bem, mais do que suicídio acho que se trata de assassínio: assassínio organizado por uma sociedade que faz as pessoas sentirem-se a mais. O aumento do desemprego sénior (entre os mais de 50 anos), da amputação afectiva (o divórcio é apenas a ponta do icebergue), da sensação de que se falhou a vida só fazem recear o pior. Ironicamente vivemos numa época de extremos: os jovens têm a sensação de que todas as entradas no sistema lhes estão tapadas pelos mais velhos; os mais velhos sentem que esta sociedade está toda virada para os jovens. No meio disto só uma cada vez mais pequena casta se sente, autista, confortavelmente bem na sua pele. E sem vontade nenhuma, nadinha, de se suicidar.






De Rui Zink a 6 de Outubro de 2008 às 10:30
PS) O que é pena.


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De O Jansenista a 6 de Outubro de 2008 às 16:26
No Sonho de Cipião (De Re Publica, VI), Cícero imagina o jovem Cipião a contar o sonho que terá tido, e no qual reencontra o seu avô – Cipião «Africano» –.
À perplexidade do jovem (“não morreste?”), o velho responde com um paradoxo famoso, que são aqueles que julgamos mortos que estão verdadeiramente vivos, porque libertando-se da prisão do corpo experimentam a vida eterna, e que são os que julgamos vivos que vivem a morte (na forma de sofrimento e decadência) na existência sublunar.
Entra no sonho Paulo, o pai do jovem Cipião, e com a emoção do reencontro destes dois desaparecidos o jovem, inebriado com o paradoxo, pergunta-lhes se não deverá juntar-se a eles nessa dimensão de vida verdadeira.
Paulo dissuade-o, com argumentos retirados de Platão: não somos livres de nos libertar da Terra senão por ordem daquele que nos colocou nela para dela cuidarmos (senão, que sentido teria estarmos aqui?); não podemos libertar a alma do corpo, insiste o pai do sonhador, porque isso seria desdenhar o dom que, investindo-nos no que somos, nos transcende.
Não era a posição unívoca de Cícero (De officiis, De finibus, Tusculanae Disputationes). Mas a fama do “Sonho de Cipião” associou-o, na tradição cristã, à condenação do suicídio, até aos tempos de impiedade do iluminismo.
Antes, Séneca tinha subtilmente (e ironicamente, dado o seu desfecho pessoal) invertido já os termos de Platão: a renúncia ao suicídio não é o cumprimento de um imperativo, é antes o exercício de uma liberdade – é um gesto moral.
É na ponta desta inflexão valorativa que pega David Hume, quando busca reabilitar o suicídio como expressão irredutível e idiossincrática da última liberdade que pode restar à nossa condição (quando acordamos, cépticos, do Sonho de Cipião).


De Rita Sousa a 7 de Outubro de 2008 às 14:56
A extrema solidão emocional.

Não ter com quem partilhar.

O sentimento de que se é incompreendido.

A não aceitação de si próprio.

O sentimento extremo de incapacidade para lidar com a perda.

O não vislumbrar um único objectivo de vida futura.

Não ter esperança.


Julgo que, na generalidade dos casos, são estes os principais motivos que levam uma pessoa a desistir de viver.

Gostava de chamar a atenção dos leitores, principalmente dos médicos, que fazer os pacientes engolir comprimidos não os faz falar, pode calá-los ainda mais e provocar-lhes uma enorme apatia.

Às vezes a única coisa de que as pessoas precisam é de alguém que as oiça e sem críticas. Isso e apenas isso. Basta que alguém as oiça para que se oiçam a si próprias e arranjem forças para prosseguirem as suas vidas.

Mas claro, a maioria dos médicos não tem tempo para ouvir os pacientes (nem os quer ouvir) mas apenas para passar uma receita... Os que têm tempo de ouvir cobram o que a maioria não tem.

Tratamentos psicoterapêuticos demoram muito tempo e custam muito muito dinheiro.É lamentável que o Estado Português e as Seguradoras não contribuam financeiramente para a resolução deste tipo de problemas.







De Monica a 8 de Outubro de 2008 às 12:59
O suicídio é normalmente um acto solitário, de quem embora por vezes acompanhado viveu em solidão.
Mais chocante é o "suicídio acompanhado", quero dizer, situações como as vividas a noite passada no Norte, de um homem que vem para a janela disparar para a rua, mata 2 pessoas, e depois tenta suicidar-se ... ou o homem/mulher que, desesperado e transtornado por uma separação, mata os filhos e suicida-se ...
Ou o suicídio aceite na cultura oriental como acto de protesto (os budistas que se imolam plo fogo, a viúva que se suicida lançando-se na pira funerária do marido morto)... e no limite, o suicida que detona explosivos e mata com ele dezenas ou centenas de pessaoas ...
São dimensões diferentes da forma como se encara a morte, ao fim e ao cabo ...


De Anónimo a 8 de Outubro de 2008 às 16:06
Afirmar que os homens se suicidam de modo "sempre mais violento" parece-me falso. Primeiro, há que clarificar o conceito de "violência" neste caso específico, isto é, se ela se refere a um processo de morte doloroso ou a um processo de morte desfigurante e destrutiva, mas não particularmente doloroso. Por exemplo, cortar os pulsos é um das formas mais dolorosas (e também das menos eficazes) formas de morrer e é utilizada tanto por homens como por mulheres. E que dizer da imolação no fogo amplamente praticada por mulheres jovens em certas zonas da Ásia Central (ex. Curdistão) e em Cuba (e que nada tem a ver com a imolação das viúvas indianas)? Em Cuba só as mulheres e os homossexuais escolhem este modo bárbaro de se matarem, que é também um modo de dramatismo e teatralidade pública. Pelo contrário, as armas de fogo utilizadas pelos homens são um método muito mais pragmático e eficaz que, em princípio, propicia uma morte rápida e sem dor. De qualquer modo, há que ter em atenção que as armas fazem parte de um universo tipicamente masculino e é mais fácil um homem ter acesso a uma arma que uma mulher.
De resto, os métodos de suicídio têm uma relação muito mais forte com o tipo de perturbação subjacente do que com o género. Exemplo: atirar-se para debaixo de um comboio é geralmente praticado por pessoas com perturbações psiquiátricas mais graves.


De Scribblers a 8 de Outubro de 2008 às 22:38
Já online, aproveitando a passagem do seu 30º Aniversário, o blogue do SOS Voz Amiga:

http://sosvozamiga.blogs.sapo.pt


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