De Ana Soares a 14 de Fevereiro de 2009 às 13:25
Sou terrivelmente supersticiosa!

Quem me ajuda a pensar nestas coisas é um colega meu, José Joaquim Dias Marques, especialista a sério em "literatura oral" e "cultura de massas." Tenho para mim, por esclarecimento dele, que as superstições são como as lendas (fairytales ou, na versão actual, urban legends): a gente dá-lhes uma roupagem nova, adaptada aos tempos e com os gadgets mais recentes, mas a base continua a mesma desde há séculos. E isso deve ter a ver com a nossa necessidade de controlar aquilo que, de facto, não controlamos de maneira total: a existência. Se, mesmo que racionalmente eu saiba que não existe uma relação entre o passar por baixo de uma escada e um infortúnio que me suceda uns passos ou umas horas adiante, evitar passar debaixo da escada pode "garantir-me" o controlo das situações no futuro imediato. O mais comum, com certeza, é que a probabilidade de um infortúnio seja idêntica tanto para as pessoas que não passam por baixo da escada como para as que prevaricam, gozam com a sorte, arriscam e são inconscientes ao ponto de o fazer. Por isso, quase sempre a cautela tem o resultado que se espera que tenha. Os poucos casos em que tal não acontece são a excepção que valida a regra, claro.

Acho que me lembro exactamente do momento em que decidi que seria supersticiosa - porque achei graça à atitude e porque me permitia uma série de jogos cómicos com as pessoas mais próximas. Ainda hoje confundo muita gente quando, num jantar ou numa ocasião parecida, faço um escarcéu se alguém põe uma carteira no chão ou um chapéu em cima da mesa. Além disso, tomei o gosto a inventar manias para, precisamente, confundir uns (os que me conhecem há menos tempo ou são mais crédulos por natureza) e divertir outros (aqueles que já me conhecem de gingeira). Por vezes tenho uma atitude mais séria com as superstições: quando estou em casa de alguém genuinamente supersticioso, ajo em respeito da pessoa em causa (bem, se for já de uma certa idade; se for jovem, palpo para ver qual é o grau de superstição e, se estiver ao meu alcance e no contexto da situação, procuro desiludir a criatura, que estas coisas não são para brincadeiras). O engraçado é que, apesar de ter decidido tornar-me supersticiosa e de o tê-lo feito por divertimento fazer com que não respeite sempre as ditas superstições, nomeadamente quando sei que isso não me dará qualquer benefício de gozo, já dei por mim sozinha a desviar-me de escadas ou a tirar um chapéu de cima de uma cama, com um sentimento estranho (guerreando com o pensamento racional) de que, se não o fizer, alguma coisa nalgum lugar há-de sair de uma ordem qualquer. Mais recentemente dei por mim a pensar que ser supersticiosa faz-me sentir ligada à Idade Média, um tempo em que não vivi e de cujas ruínas gosto muito.

Tens aqui pelo menos dois lugares, um já de 2002 (http://www.halfbakery.com/idea/modern_20superstitions) e outro mais recente (http://www.labmonkey.ws/Articles/title-Modern-Day-Superstitions-num-107.html), com listas de "superstições modernas." Há centenas pela net. É óbvio, pela leitura só destas duas listas (que escolhi por serem das primeiras na pesquisa do Google), que foram coligidas por gente que leva a empreitada meio a brincar mas talvez também meio a sério. É igualmente óbvia a ironia em muitas das superstições, como a de que "dá azar pôr uma cama em cima de um chapéu." Pode ser que hoje em dia se tenha mais instrumentos para provar que estas crenças enfermam todas de falta de base racional, lógica ou científica, que não fazem sentido e que não deveriam, para que o ser humano crescesse em razão das descobertas do conhecimento, ser respeitadas. Também me deu para pensar que, ao mesmo tempo, a disponibilidade dos meios de difusão de qualquer crença - mesmo uma coisa absurda que alguém invente por brincadeira e sem intenção sequer de propagar - faz com que haja uma espécie de "regressão epistemológica," segundo a qual, como a informação é transmitida pelos meios da tecnologia, é fiável porque tem o "selo" da ciência. Quantas mensagens de e-mail não recebemos já, de pessoas que até supunhamos imunes a tais crendices, daquelas cadeias manhosas com coisas absolutamente estapafúrdias, que terminam em "se não enviar esta mensagem a dez amigos não se realizarão os seus desejos"?


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