De
Rui Zink a 30 de Outubro de 2009 às 16:58
Não sei quem disse isto, mas parece-me uma evidência: o valor dum sistema social mede-se pelo modo como trata os mais fracos. Obviamente que gosto muito do provérbio "Se vires um pobre com fome não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar". A verdade é que ultimamente, sobretudo com a dificuldade dos licenciados em conseguirem emprego, os bónus dourados a incompetentes, a existência do dr. Dias Loureiro, o abandono dos idosos à miséria, o provérbio tem mostrado que, tal como a Bíblia, não pode ser levado à letra. Neste caso o pobre pode morrer de fome antes de conseguir dar uso à cana. Acho que o Estado tem uma responsabilidade directa no assunto. Os voluntários são fantásticos, mas são amadores - isto é, não se lhes pode pedir que o façam sistematicamente. A maioria são turistas, no bom sentido. Este é um daqueles casos em um governo devia dizer: "Olhem, é para isto que pagam impostos." Porque é maravilhoso que a sociedade civil se mobilize, mas não pode ser por aí. As guerras, sejam aos Talibans, sejam à fome, sejam às doenças, não podem depender de privados.
Nem mais! O governo tem que agir o mais rapido...
De Anónimo a 31 de Outubro de 2009 às 18:25
Há poucas coisas que partam o coração como ver idosos abandonados e entregues à sua sorte. Acredito que uma sociedade também se mede pela atitude que tem para com os desprotegidos- sejam os desalojados, os desempregados, os doentes ou os idosos. Nesse aspecto, em Portugal, há, felizmente, grande solidariedade e muitos voluntários que são, por vezes a única ajuda com que podem contar essas pessoas. Mas, e aqui concordo totalmente com Rui Zink, o voluntariado- turista ou não- não chega nem pode substituir o Estado. Obras públicas de desenvolvimento do país são precisas mas combater a exclusão social e a pobreza dos que contribuiram- muito ou pouco, poco interessa- para o país, devia ser uma prioridade do governo. No estado actual das coisas é ainda mais urgente tomar mais medidas.
De O Jansenista a 31 de Outubro de 2009 às 23:49
O problema da velhice é um problema individual que se converte num problema social que não deveria converter-se num problema político – se não existisse essa miopia colectiva que nos faz descontar desproporcionadamente a nossa própria velhice, se não houvesse problemas de descoordenação que tolhem os movimentos de solidariedade, e se não existissem os azares da fortuna que se conjugam para tornar algumas velhices em verdadeiras catástrofes.
Há uns anos um ex-boxeur, um mauzão e homem de muitas vidas (e todas nebulosas) resolveu tomar conta dos Alunos de Apolo – diziam as más-línguas que os ingressos facilitariam o branqueamento de algum dinheiro. Mas foi com ele que se generalizou, por todo um bairro envelhecido e empobrecido, a prática das refeições gratuitas. Quando se descobriu que alguns dos velhotes já não conseguiam subir as escadas para a sala de refeições primitiva, ele arrendou uma casa térrea por perto, na qual qualquer velhote, sem burocracia, sem devassa e sem alarido, consegue matar a fome.
O Mauzão não esteve à espera de ninguém, limitou-se a observar e terá dito a si mesmo que um dia podia acabar também assim. Não sei se houve lavagem de dinheiro – mas vejo frequentemente, num vaivém de sombras recurvadas, que houve vidas e dignidades salvas.
De Helena Miranda a 4 de Novembro de 2009 às 19:10
Antes de cada Inverno devia fazer-se um plano conjunto (população e governo) para evitar-se o frio e a fome entre os mais desfavorecidos e os mais idosos. É realmente triste vermos pessoas que sempre tiveram uma vida digna a acabarem os dias sem se poderem valer e com fome, ou velhos abandonados nos hospitais, na altura do Natal. Há uns 5 anos, conheci uma velhinha muito cuidada com cerca de 80 anos, a vender panos de cozinha na rua, porque a reforma não era suficiente e o marido tinha ficado subitamente doente. Aquilo meteu-me muita impressão, estava frio e ela não tinha agasalhos suficientes, embora não se queixasse de nada. Na altura perguntei-me se não deveria ter faltado ao emprego para ficar a vender os panos e ela poder ir só para casa, descansar, como deviam poder fazer todos os velhos. Este é um tema que move as pessoas, penso que todo o tipo e ajuda é válido.
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